Maio 28, 2008...2:53 pm

A agricultura totalitária

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Um texto do Augusto de Franco me inspirou a escrever sobre isso. É uma tentativa de resumo das idéias que aprendi em Ismael e em outros textos de Daniel Quinn. Eis minha resposta ao artigo de Augusto, que enviei por email para ele e David de Ugarte (meu mais novo amigo de infância!):

***

Augusto (e David)

Reservei teu texto para saborear com calma. E foi o que fiz agora. Achei-o muito inspirador, principalmente a parte sobre o inconsciente coletivo. Ele será muito útil para meus escritos sobre a linkania e o religare.

Vi que comentaste na coluna à direita que não pretendes fazer alterações e que ele está como um contexto, uma espécie de caminho que percorreste. Eu queria aqui contribuir um pouco com esse caminho, acrescentando o que aprendi lendo Daniel Quinn e aproveitando para colocar David a par disso que venho dizendo com frequencia mas não explicando muito bem. Como leste Quinn, fica mais como complemento a trechos de seu artigo.

Antes de separar uns poucos trechos, tentarei fazer um resumo de um parágrafo: Pois bem, a tal bifurcação que comentas foi a chegada da agricultura. Ela veio antes das cidades-templo, antes dos sacerdotes. Somos os herdeiros dos “pegadores”, conforme fala o gorila Ismael. Os pegadores foram aqueles grupos semi-nômades que passaram a desenvolver as primeiras tribos. Enquanto isso co-existiam com os que Quinn chama de “largadores”. Esses largadores eram os nômades, pastores, coletores de frutas e raízes. Os largadores foram todos mortos pelos pegadores. Começava a agricultura totalitária. As primeiras tribos que desenvolveram uma agricultura ainda primitiva geraram um resultado surpreendente: Morriam menos, viviam mais. Mais gente nascia. Enquanto nômades, a morte (como descreveste muito bem) era um fato da natureza. A deusa-natureza era implacável com eles como com qualquer outro animal. Os nômades largadores não podiam carregar nada consigo (por isso largadores), não podiam carregar os doentes, nem acumular alimentos. Tinham só a abundância de comida, desde que andassem pela terra, mas não tinham a abundância da vida, privilégio da deusa-natureza, que todos (incluindo os demais animais) respeitavam. Os pegadores agricultores passaram a ser sedentários trocando comida farta a seu alcance pelo trabalho de arar a terra, podiam cuidar dos doentes, menos crianças morriam. Isso acarretou mais gente, que precisava de mais comida, que seria possivel com mais terras. Então a terra (que até então era de todos) passou a ser preciosa para os pegadores. E estes passaram a matar os nomades-pastores-largadores. Imagine a cena: O primeiro guerreiro foi um agricultor querendo mais terras para sua prole. E qual é o meme que sempre carregamos? Os agricultores são bonzinhos, “obterás o alimento com o suor do seu rosto”, os bárbaros atacam nossas plantações… Tudo uma enorme mentira muito bem elaborada no decorrer dos séculos, onde a verdade ainda está escondida em alguma parte do nosso inconsciente.

Pra contar o resto, separei trechos teus, dando mais diálogo na coisa toda:

“Ninguém sabe ao certo o que teria acontecido para que surgisse um povo com tais características. Ninguém sabe ao certo porque primitivos povos de caçadores e criadores de animais foram transformados em invasores “profissionais” que desenvolveram uma ideologia sacerdotal-militar. Ninguém sabe ao certo nem onde, nem quando, nem como surgiram esses predadores, que saíram pelo mundo a fora matando, mutilando, arrasando aldeias pacíficas, escravizando povos, deixando por onde passavam um rastro de destruição social e ambiental.”

Foi lá onde depois se desenvolveu a Suméria que tudo começou. Mas não havia invasores profissionais. Não havia nada a invadir pois a terra era de todos. Os predadores foram (e são) os agricultores. Eles saíram pelo mundo matando e ficando com as terras. Tudo começou por um desejo de superar a deusa-natureza, buscar a imortalidade (ou quase) vivendo mais, garantindo sobrevivencia, mais anos, mais filhos, mais comida, menos doenças, menos mortes, mais nascimentos, tudo isso gerando mais necessidade de mais terras para essa população que crescia exponencialmente.

“…A mitologia, a religião e sobretudo a astronomia da antiga Mesopotâmia, estão repletas de evidências de uma súbita e avançadíssima civilização que – como constatou, perplexo, Joseph Campbell – simplesmente, apareceu, como que do nada, entre o Tigre e o Eufrates, há seis mil anos atrás. Não há, aparentemente, nenhuma linha de continuidade entre a Suméria e as aldeias neolíticas que estão sendo agora descobertas pelos escavadores, naquela região e em outras regiões da Ásia e da Europa antiga.”

Essa “avançadíssima civilização” era basicamente um grupo de agricultores que entre o Tigre e o Eufrates descobriram uma forma de suplantar a deusa-natureza. Surgia um deus muito mais forte: o homem. Guiado por algo muito mais importante para a agricultura: o sol. O Deus-Sol, patriarca, inspirava agricultores. O conhecimento estava surgindo junto com a tecnologia (falaste bastante bem disso em outras partes do texto). Esses semi-deuses viviam mais, estavam mais bem alimentados, tinham um lugar onde morar e por isso podiam se dedicar a ter e fazer objetos, ficar com eles ao invés de deixar tudo como os nômades. Faltava uma coisa: suplantar o próprio trabalho. O resto deixo que uma frase sua explique:

“…E foi a escravidão do homem que propiciou a liberdade dos deuses.”

Exato. Melhor do que matar a todos os nômades que encontravam em novas terras era escravizá-los. Melhor que escravizá-los era convencê-los que estes eram inferiores (e aparentemente deviam ser! Imagine um nômade, sujo, magro, sem posses, ao lado de um agricultor barrigudo, com peças metálicas enfeitando seu peito e cabeça, cheio de filhos correndo em terras cultiváveis?)

Mas em outro momento de seu texto deixas escapar um dos memes que herdamos:

“…conquistadores nômades… (vs) …aldeia agrícola neolítica.”

Não. Foi o oposto disso. Eram conquistadores agricultores versus nômades neolíticos. Esse e outros memes que carregamos, imaginando que somos herdeiros dos bonzinhos agricultores e que existiam povos bárbaros que invadiam, matavam e trucidavam nossas famílias é uma mentira das mais cruéis que carregamos. Foi justamente o contrário. Quinn, através do gorila Ismael faz ainda outras interessantes suposições sobre a própria história bíblica, onde se inverteu a história. O processo de assimilação do inimigo (incluindo sua história) gerou essas coisas estranhas. O gorila comenta: Como pode uma religião como a judaico-cristã começar com a saída do paraíso? E explica: Porque essa história era contada pelos nômades e foi assimilada pelos agricultores vencedores. Só isso explica uma Eva que comeu do fruto do conhecimento (a agricultura, a tecnologia) e como castigo teve que sair do paraíso (toda a terra e seus alimentos a disposição). Adão e Eva eram largadores e tiveram que ganhar a comida com o suor do seu rosto por terem disputado conhecimento com a deusa natureza. Já Caim e Abel é outra história assimilada pelos agricultores: Caim (agricultor) matou Abel (pastor) e ficou com todas as terras para si, tendo como castigo uma marca (seria o inconsciente? essa suposição me surge agora). A história depois disso já sabemos todos e contaste muito bem, principalmente o rápido surgimento do sacerdote e da cidade-templo com seus muros. Mas lembremos: as cidades cresciam, era necessário mais terras, um avançar que foi conquistando todo o mundo. Nossa civilização está marcada pelo acúmulo de terras. E isso foi até a América e continua ainda com os planos de conquistar o espaço. O meme é poderoso!

Falas mais aqui:
“…Preda porque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, num ritual antropofágico em busca da unidade perdida.”

Aqui não se trata de antropofagia mas sim de sincretismo. Todos os memes que herdamos são uma mistura de heranças de todos os medos que os povos que perderam sentiram. Temos medo dos bárbaros? Nós (agricultores) somos os bárbaros. Temos medo dos ciganos? Nós (agricultores) matamos todos os nômades e sobraram uns poucos ciganos. Uma boa antropofagia seria alimentar-nos das vísceras do inimigo por suas qualidades ao invés de temê-las e inverter a história. Nós, predadores, não estamos em busca da unidade perdida. Estamos simplesmente em outra bifurcação. Porque desta vez, as terras a conquistar acabaram. A idéia de conquistar o espaço não vingou (ainda bem, pois se não essa história seria infinita!), e temos então, como ouvi um palestrande dizer uma vez: que concertar um pequeno erro de uns 8 mil anos (e o que é isso dentro de mais de 300 mil anos do homo sapiens?) é pouco mais de um passo errado.

Concluo com um trecho seu:
“…Na nossa civilização patriarcal substituímos a natureza pela tecnologia e a vida pelo conhecimento da vida”

Agora, ou gaia morre ou sobrevive. Sejamos otimistas: Imagine que maravilha, nesta segunda bifurcação, com a herança que temos de novas tecnologias somadas a um conhecimento da vida e aliá-las a um novo tribalismo, com mais vida e natureza? Um multiverso de tribos eco-tecnológicas, talvez? É a minha aposta!

abraços do estraviz

2 Comentários

  • [...] y desarrollar la reflexin. Pero an quedan debates por delante entre los plurarquistas. De momento ya emerge uno nuevo. Guardado por David de Ugarte en su moleskine a las 10:30 [...]

  • Es curioso, en la Argentina pasa lo mismo con la soja. La invasión sojera, no solo desplaza la ganadería y otras diversidades agrícolas, desplaza a la gente de sus asentamientos originarios. Tierras sin valor, pasan a tenerlos con el precio de los comódities y toman visibilidad económica. ¿La escaces de tierras? en la Argentina para cultivar soja es el huevo de la serpiente de este conflicto que hoy vivimos


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